No dia 4/6/2009, o secretário da Congregação para a Educação Católica, o arcebispo Jean-Louis Brugues, O.P., em sua intervenção no último encontro anual de reitores de seminários pontifícios, afirmou que “duas correntes – “de integração” e “de controvérsia” – dividem atualmente a Igreja no Ocidente”.
Aponta que “existe agora, na Igreja européia e na americana, uma linha de divisão, talvez de fratura, que varia sem dúvidas de um país para outro, e introduz o que eu chamaria de uma ‘corrente de integração’ e uma ‘corrente de controvérsia’.”Na corrente de integração “existem valores cristãos na secularização – como a igualdade, a liberdade, a solidariedade e a responsabilidade – e que deve ser possível colaborar com essa corrente e encontrar áreas de cooperação”. Já a “corrente de controvérsia convida a tomar distância... Considera que as diferenças ou conflitos, sobretudo no âmbito ético, serão cada vez mais pronunciados” e propõe “um modelo alternativo ao modelo dominante”. (cf.: http://www.zenit.org/, 4/6/2009).
A corrente de integração predominou após o Concílio Vaticano II (1962-65) e proporcionou a base ideológica às interpretações que se impuseram ao final dos anos 70 e na década seguinte. As coisas se inverteram a partir dos anos 80, particularmente, sob a influência do Papa João Paulo II. Os católicos de integração costumam ser de idade avançada, mas ainda ostentam cargos-chave na Igreja, enquanto que a corrente de controvérsia ou alternativa se reforçou muito, mas ainda não é dominante.
Estas visões e opções eclesiológicas distintas explicam as tensões da atualidade em muitas Igrejas e as diferenças ocorrem em diversos segmentos do mundo cristão e católico, de modo que os bispos e o clero, as paróquias com suas pastorais e os movimentos, as universidades e as escolas católicas, os seminários e as casas religiosas, se distribuam e organizem sua ação de acordo com cada linha.
Alguns grupos optam por se adaptar e cooperar com a sociedade secularizada com o risco de se distanciar da fé, da doutrina ou da moral católica. Outros grupos, de inspiração mais recente, sublinham a confissão da fé e a participação ativa na evangelização assumindo, muitas vezes, posturas ultrapassadas e restauracionistas, sacrificando o diálogo com o mundo contemporâneo. Percebemos que boa parte da Igreja ocidental vive uma dinâmica de ‘autossecularização potentíssima’.
Muitos cristãos se perguntam: qual é a linha correta e qual delas devo seguir?
Apesar das duas linhas, creio que o desafio é este: discernir qual a vontade de Deus e o sentido da vida criada, em cada contexto histórico e suas circunstâncias. Que os cristãos se perguntem em qual Deus acreditam? Como vivem e assumem a vida na Igreja? Como é o diálogo com a razão e a fé e entre religião e mundo? A relação entre passado, presente e futuro a partir da vida e ensinamentos de Jesus Cristo.
. E no centro de toda reflexão e ação não se pode deixar de lado o essencial: a proposta salvadora de Jesus Cristo, o respeito à vida e à dignidade de todas as criaturas e, finalmente, a melhoria do mundo, a partir de suas estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas.
É importante que os cristãos e católicos assumam com consciência, coerência e com entusiasmo sua vocação e missão e sejam o fermento na massa, apesar das diferenças geradas pelo pluralismo e pelas distintas visões e opções.
As visões distintas e contrárias fazem parte da natureza humana e dos processos históricos. Que elas possam ajudar no crescimento e aperfeiçoamento da espiritualidade, da religião e das relações humanas na busca do sentido da vida e da felicidade para todos, na construção do outro mundo possível.
Pe. Ronaldo Mazula, cmf