Aquele 1922 foi um ano muito atípico no Brasil, mais em conseqüência da grave crise econômica que se abateu no país devido à queda nas exportações agrícolas durante o período da Primeira Guerra Mundial, a recessão decorrente com o término do conflito e a necessidade de se reconstruir os países europeus. Mas os problemas começaram mesmo com o impedimento do presidente-eleito em março de 1918, o estadista paulista Francisco de Paula Rodrigues Alves, acometido da influenza espanhola. Contaminado pela gripe mortífera quando preparava sua equipe de governo, em Guaratinguetá, sua terra natal, às vésperas da posse, Rodrigues Alves enviou um mensageiro ao Rio para entregar uma carta ao Congresso Nacional, comunicando sua incapacidade física de assumir o comando da nação. Ele morre dias depois e, Delfim Moreira, o vice-eleito, assumiu o poder em mandato “tampão”, até que se procedesse outra eleição, o que ocorreu em 13 de abril de 1919, com a vitória do paraibano Epitácio Pessoa com uma margem de 131.021 votos sobre o segundo colocado, o jurista Rui Barbosa. Mas, antes mesmo de assumir, Epitácio deu um verdadeiro show de mordomia, ao comandar uma nababesca viagem à França, a pretexto de participar da Conferência de Paz que selou de maneira formal o final da guerra. O presidente-eleito encheu um transatlântico de figurões e respectivos familiares, quando bastariam, no máximo, uns dez representantes de alto nível para formar a comitiva. Somente o historiador Pandiá Calógeras – que havia exercido o Ministério da Guerra no exercício anterior – levou a mulher, todos os filhos, vários sobrinhos e amigos íntimos. A ilustre comitiva brasileira quase lotou o navio que saiu do porto do Rio com destino a Paris. Um jornal da época destacou o seguinte: nada como conhecer os encantos da Cidade Luz, à custa do erário público, mesmo quando esse erário é tão combalido quanto o pobre Tesouro Nacional. Enfim, vão-se mais alguns anéis!... Epitácio assumiu encarando uma situação terrível devido à crise, e a revolta dos militares que estavam com os salários atrasados e indignados com a criação de um partido por comunistas. A carestia sufocava os operários; as finanças estavam corroídas e a situação social se agravava com o correr dos dias. Nessa onda, um grupo de tenentes do Exército, com a adesão de soldados, cabos e sargentos, tomou de assalto o Forte de Copacabana, voltando os canhões sobre a cidade do Rio de Janeiro, para exigir a renúncia de Epitácio. Foi uma loucura incrível! De 300 e poucos rebeldes, apenas 18 resolveram sair pela avenida da praia para enfrentar um contingente de mais de 3 mil aliados ao comando da força. Dos 18, apenas Eduardo Gomes e Siqueira Campos se salvaram. Outra rebeldia aconteceu em São Paulo, naquele 1922: também, munidos de espírito revolucionário, um grupo de intelectuais resolveu virar a arte pelo avesso. Oswald de Andrade, Mário de Andrade – que, apesar do sobrenome não tinham parentesco algum – Menotti del Picchia, Plínio Salgado, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos e tantos outros promoveram, de 13 a 15 de fevereiro, a Semana de Arte Moderna. Oswald de Andrade abriu o evento com um discurso detonando Carlos Gomes, dizendo que a música do autor de “O Guarani” é horrível e levando uma fenomenal vaia da platéia presente ao Teatro Municipal. Villa-Lobos regeu a Orquestra Sinfônica do Estado, colocando folhas de zinco entre os violinos, trompetes, oboés, promovendo uma barulhada danada. Outra vaia gigantesca! Os pintores apresentaram quadros com figuras pictóricas e extravagantes; os poetas cantava versos de cabeça para baixo. Foi mais uma loucura daqueles anos estranhos. Covas Júnior – jornalistaajcovas@radiocapital.am.br