Colunistas

Deixa Falar...

18/02/2010

Covas Junior

Modéstia à parte, escola de samba é um tema que eu conheço profundamente até por questões de raízes, pois desde criança sempre fui ligado a percussão e, quando adolescente, precisava de autorização do juizado de menores para tocar bateria nos bailes carnavalescos da Operária, na orquestra do maestro Alfeu Ribeiro. Já em São Paulo, seguindo a carreira profissional de radialista e jornalista da Rádio Record, de Paulo Machado de Carvalho, mergulhei de cara no mundo do samba, juntamente com o falecido diretor artístico da emissora, Édison Guerra. O samba de São era desacreditado e ninguém dava valor aos nossos sambistas e nossas escolas de samba. Um dia, o poetinha Vinícius de Moraes – depois de umas três garrafas de uísque – cometeu a aleivosia de dizer que São Paulo era o túmulo do samba. Aquilo nos deixou com um terrível nó na garganta. Para provar o contrário, a Rádio Record criou o programa Roda de Samba que eu e o Guerra apresentávamos todos os sábados, o ano inteiro – e não só na época dos carnavais – transmitindo diretamente das quadras das escolas, da meia-noite às quatro da madrugada. Em 1972, participei da diretoria da extinta Federação das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos de São Paulo, como vice-presidente de Divulgação. O presidente era o jornalista e radialista Evaristo de Carvalho.  A Federação foi extinta e criada a União das Escolas de Samba, presidida pelo ex-produtor do Fantástico, da Globo, Renato Corrêa de Castro, e, eu me mantive na mesma função. Com isso, sempre fui muito ligado ao mundo do samba de São Paulo e do Rio. No Rio também eu tinha muitos amigos nas escolas, como o Xangô da Mangueira, o Darci da Mangueira (grande autor de O Mundo Encantado de Monteiro Lobato, samba-enrêdo da verde-e-rosa de 1969; Mano Décio da Viola, da Impérlo Serrano e pai do Jorginho do Império; Natal da Portela e seu filho Mazinho (que sempre me hospedava em sua casa, no Rio), enfim, foram tempos que não voltam mais.          Um dia, tive a idéia de promover um festival de música popular brasileira, logo encampada pelo Guerra. Falamos com o Luiz Carlos Paraná, grande produtor e dono da boate Jogral, que só tocava samba, e o festival foi realizado na saudosa casa da Rua Avanhandava” . Trouxemos a Clementina de Jesus, Xangô, Martinho da Vila, Darci, Elton Medeiros, Geraldo Filme, Mano Décio, Beth Carvalho, Noca da Portela,enfim, a nata do samba, inclusive – claro – Ismael Silva, grande compositor e fundador da primeira escola de samba. Lembro-me que, naquela noite, fui buscar o Ismael no Hotel Normandie, na Avenida Ipiranga. Com a idade já avançada, ele trajava um deslumbrante terno branco, com sapatos brancos e gravata vermelha, bem no estilo dos antigos malandros do samba do Rio. E, durante sua apresentação – entre um samba e outro – por sugestão minha, Ismael contou como ele criou a primeira escola de samba do país. E, ao contrário do que muitos imaginam, o termo “escola” não surgiu pelo fato de ser um local onde se aprendia a sambar. É que, Ismael e um grupo de sambista amigos se divertiam nas noites de sábados no páteo da antiga Escola Normal , no bairro do Estácio, que havia sido cedido pelo diretor do referido colégio. Ali , os sambistas promoveram as rodas-de-samba pioneiras do Rio de Janeiro. Ismael Silva se reunia com os amigos no centro da cidade e, no momento certo, dava o comando: vamos pra escola, rapaziada! A escola era, de fato, a escola normal e não escola de samba. Foi então que Ismael resolveu oficializar a brincadeira como escola de samba. Na hora de elaborar o estatuto, houve um dilema: que nome deveria ser dado à agremiação? Como os vizinhos reclamavam muito do barulho da batucada e das cantorias, os sambistas viviam dizendo... deixa falar!...deixa falar!...Foi então que Ismael teve a idéia e, assim, nasceu o Grêmio Recreativo Escola de Samba Deixa Falar, no dia e de dezembro de 1928. A Deixa Falar foi o alicerce da Portela.

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