Neste artigo quero partilhar, brevemente, algumas impressões e experiências que tivemos na África, em Moçambique, no mês de janeiro, com 16 voluntários de nosso projeto Claretiano Solidário do Centro Universitário Claretiano de Batatais.
A colonização portuguesa dominou Moçambique durante cinco séculos e após as guerras de independência, o país conseguiu se livrar do jugo colonial em 1975 e a seguir, entrou numa guerra interna que durou até 1992 e destruiu quase todo o país, gerando muita pobreza e miséria.
Gilé está no norte do país, na província/estado de Zambésia, onde se localizava grande parte da guerrilha e da oposição atual, o que gerou mais pobreza. Em Gilé, nome de um belo monte de quase 900 metros, muitos buscaram refúgio na fuga da guerra. Ali predomina a etnia lomwe, com língua e costumes próprios; muitos idosos e crianças não falam português com fluência e vivem ali uns 150 mil habitantes espalhados por uma vasta região rural e na sede vivem umas 25 mil pessoas.
Gilé possui deficiente infra-estrutura urbana. Algumas escolas são muito pobres, não tem biblioteca nem laboratórios. O hospital é muito simples e estão construindo outro melhor. As ruas são muito mal estruturadas, a energia elétrica chegou ano passado e não é acessível à maior parte do povo e não tem água disponível para a população e sim poços onde as mulheres buscam água para suas casas; a roupa é lavada no rio que corta o distrito; não há rede de esgoto; para o comércio tem 2 mercados abertos, com barracas e negócio pequenos. As casas são pequenas e feitas com paredes de bambu com pedras e barro e algumas construções são de adobe (grandes tijolos de barro cru). A maioria das casas do Gilé é coberta de capim que devem ser trocado todos os anos. Algumas casas possuem telhados de zinco. Não há casa com telhas de barro.
Não há cercas no Gilé. Muitas casas não possuem portas. É possível que muitos nunca tenham dormido numa cama. Dorme-se em esteiras, no chão. Próprio da cultura.
Apesar da escassez de alimentos, o povo do Gilé não passa fome. Em Moçambique é permitido ocupar um pedaço de terra para fazer uma roça, a terra pertence ao governo e há necessidade de pedir licença para a administração central. A grande maioria faz uma cultura de subsistência, que é chamada de machamba. Planta-se, principalmente, mandioca, amendoim, milho, abacaxi, manga, caju, laranjas etc.
Um costume cultural é comer cupim (muchém) e as crianças reforçam seu cardápio comendo-os. E é interessante verificar a habilidade das crianças em tirá-los sem estragar o cupinzeiro. Elas aprenderam que não podem acabar com a fonte. A base da alimentação é a chima, uma espécie de polenta feita com farinha de mandioca.
Como os pais saem cedo para o trabalho na machamba, muitas crianças ficam em casa com os irmãos mais velhos. Nem sempre tão mais velhos. Porque muitos vão pra machamba trabalhar. Na verdade, as crianças precisam “se virar” quase que sozinhas durante o dia. E perambulam por entre as casas, trilhos e lugares do Gilé. E não correm perigo? Perigo de que, afinal? Estão em seu habitat e isso é fato comum. As crianças aprendem “se virar” logo cedo e sozinhas.
O regime social é matriarcal, mas as mulheres trabalham duro na lida diária e muitas cuidam da machamba sozinhas além de cuidarem da educação dos filhos, buscar água no poço, lavar roupa no rio, etc.
No próximo número escreveremos mais detalhes de nossa viagem e projeto solidário. Há muito que se aprender com o povo moçambicano!
Pe. Ronaldo Mazula cmf
Prof. Eugenio Daniel