Aos 87 anos, morre José Saramago.Como é de praxe, é preciso vir o término da vida para que ocorra a proliferação de homenagens. Sendo póstumas, o próprio homenageado fica alheio ao ato.José de Sousa Saramago nasceu aos 16 de novembro de 1922, na vila de Azinhaga, em Golegã/ Portugal. De origem simples, não consegue arcar com os custos de se graduar em uma universidade. Por essa razão, forma-se em uma escola técnica, para exercer a função d serralheiro mecânico. Mas como trabalho não é sinônimo de profissão, Saramago se profissionaliza sozinho: a noite, freqüenta bibliotecas públicas, devora livros... há quem diga que somente aos 19 anos é que Saramago consegue comprar seu primeiro livro.Aos 25 anos, publica o seu primeiro romance (Terra do Pecado, 1947). Sua produção bibliográfica é variada: poemas, peças teatrais, crônicas, contos... mas o destaque são seus romances. São os seus romances que lhe proporcionam projeção internacional, com destaque para: Memorial do Convento, 1982; O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984; A Jangada de Pedra, 1986; História do Cerco de Lisboa, 1989; O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991; Ensaio Sobre a Cegueira, 1995; Todos os Nomes, 1997; A Caverna, 2000; O Homem Duplicado, 2002; Ensaio Sobre a Lucidez, 2004; As Intermitências da Morte, 2005; A Viagem do Elefante, 2008; e, mais recentemente, Caim, 2009.Em certa medida, o sucesso de Saramago guarda estreita relação com sua narrativa simples, que não se confunde com pequenez. Pelo contrário. Ao optar por um estilo oral (escrita que se assemelha à conversa), o autor se aproxima do leitor, estreitando laços, típicos da tradição oral popular, na qual a vivacidade da comunicação adquire contornos vitais para conferir fluidez à fala e à mensagem a ser transmitida.Um de seus objetos de estudo é a narrativa histórica. Em alguns de seus romances, como, por exemplo, “História do Cerco de Lisboa” (1989), Saramago realiza uma releitura da história dita oficial. Outro ponto alto de suas especulações é a religião, ou melhor, a condição humana frente ao divino, à vida/morte e à sua própria existência.Em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, publicado em 1991, o autor reescreve o livro sagrado sob o ponto de vista de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino, questionando o lugar de Deus. Talvez essas indagações reflitam aquelas interiorizadas em seu próprio espírito ateu.Saramago também problematiza o capitalismo, confrontando-o a própria existência humana. Nesse sentido, “Ensaio Sobre a Cegueira”, publicado em 1995, é exemplo emblemático que, inclusive, foi adaptado para o cinema em 2008 e dirigido por um brasileiro, Fernando Meirelles.O reconhecimento mundial de sua genialidade ocorreu em 1998, quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Trata-se do primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel, e essa vitória simbolizou o reconhecimento internacional da prosa portuguesa. Antes disso, em 1995, Saramago havia sido contemplado com o Prêmio Camões, homenagem máxima oferecida aos escritores portugueses.Várias são as definições que poderíamos lhe impor: escritor, romancista, poeta, dramaturgo, contista. Comunista, idealista, filósofo, ateu. Filho, pai, marido. Saramago foi vários em um só. Contemplou a complexidade em unidade. Foi humano. Demasiado humano. TALITA TATIANA DIAS RAMPIN é mestranda em Direito da UNESP, em Franca, e graduanda em Filosofia pela CEUCLAR, em Batatais.