Colunistas

CARINHOSO

23/07/2010

Covas Junior

Era a primeira sexta-feira de novembro de 2007 e eu estava em New York visitando o Fabiano, meu primogênito que reside na grande cidade norte-americana há 11 anos. Naquela noite, em Time Square, fomos a um bar freqüentado por brasileiros e havia em uma das mesas um grupo de alegres cariocas comemorando o aniversário de uma moça. Em determinado momento, eles começaram a cantar Carinhoso, obra-prima de Pixinguinha que, apesar de atravessar gerações, continua marcando a posição de clássico eterno da música popular brasileira. E, sem vacilar, o pianista americano que tocava no bar acompanhou o coro, ao qual me integrei, e solou a melodia com incrível perfeição, no ritmo de samba-canção, demonstrando que conhecia profundamente a música, o que me deixou até emocionado. De fato, Pixinguinha, quando ainda era jovem, à frente dos Oito Batutas, época em que as primeiras gravações em 78 rotações começaram a ser registradas, já era conhecido nos Estados Unidos e na Europa, nos primeiros anos da década de 20, enquanto suas composições que marcaram décadas eram cantadas por todo o Brasil.       Alfredo da Rocha Viana Filho, nasceu no dia 23 de abril de 1897, e, como não poderia deixar de ser, na cidade do Rio de Janeiro, grande Meca da culturaBrasileira, principalmente por ser a capital do país e principal pólo de atrações político-sociais. Ele nasceu no meio da música, encantando-se com o pai, Alfredo da Rocha Viana, um funcionário dos Correios que chegava em casa do trabalho e já pegava na flauta, esperando os amigos “chorões” que apareciam para intermináveis noitadas diante das partituras de choros, lundus, sambas e outros ritmos. E foi com o próprio pai que Pixinguinha aprendeu a tocar, primeiramente flauta, partindo, depois, para o saxofone. Aliás, Otávio Viana, o “China”, seu irmão, também era um músico de primeira.        Ainda adolescente, Pixinguinha – apelido derivado do “Pissindim”, dado pela avó materna –, começou a tocar nos célebres cabarés do bairro central da Lapa, berço de quase todos os grandes músicos daqueles anos dourados, e, logo em seguida, dado ao grande talento, foi contratado pelo dono do Cine Rio Branco, para tocar e dar animação  enquanto eram projetados os filmes do cinema mudo. A partir de então, ele começou a atuar sem parar, freqüentando, profissionalmente outras salas de cinemas do centro do Rio, teatros de revistas e casas noturnas, até que se juntou a Donga, João da Baiana e João Pernambuco para formar  O Grupo Caxangá, dando origem ao histórico Grupo Oito Batutas, que chegou, inclusive, a fazer uma excursão a Paris e Buenos Ayres, em 1919.       Em 1930, Pixinguinha foi contratado pela gravadora RCA Victor para atuar como maestro-arranjador, acompanhando os grandes cantores daquela geração, como Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Calas, Orlando Silva e tantos outros. Na década de 40, Pixinguinha passou a integrar o célebre conjunto de choro de Benedito Lacerda, outro grande gênio da flauta. Nesse conjunto, nosso homenageado tocava sax-tenor. Enfim, Pixinguinha foi um dos músicos mais brilhantes do país, não só como intérprete, mas principalmente na condição de compositor que deixou uma bagagem de extraordinário valor, como foi o caso do próprio Carinhoso, Lamentos, Rosa – grande criação de Orlando Silva – Sofres por que Queres, Vou Vivendo, Gavião Calçudo, Tristezas não pagam dívidas, enfim, são centenas de partituras que ainda estão por aí, fazendo a festa dos eternos chorões. Mas, confesso que sou mesmo muito apegado ao imortal Carinhoso, que nunca deixo de ouvir, principalmente quando o registro vocal é o deixado pelo saudoso Orlando Silva, O Cantor das Multidões. Meu coraçãonão sei por queBate feliz, quando te vêE os meus olhos ficam sorrindoE pelas ruas vão te seguindoMas mesmo assim Foges de mim  Ah se tu soubesses Como eu sou tão carinhosoE muitoMuito que te queroE como é sincero O meu amorEu sei que tuNão fugirias mais de mim Vem, vem, vem, vemVem sentir o calor dos lábios meusÀ procura dos teus Vem matar essa paixãoQue me devora o coraçãoE só assim entãoSerei felizBem feliz Pixinguinha morreu na noite de 17 de fevereiro de 1973. Eu estava em uma roda de samba na quadra da Mocidade Alegre quando a notícia chegou e fizemos um minuto de silêncio. Depois, o samba rolou a madrugada toda, em sua homenagem. Lá onde se encontra, ele deve ter gostado muito.  Covas Júnior – jornalistaAjcovas@radiocapital.am.br        

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