Em certa cidade de fortes tradições religiosas, onde os “crentes” haviam sido discriminados e perseguidos em um passado recente, surgiram diversas igrejas evangélicas. A mais antiga das igrejas que chegara à cidade já não existia mais quando muitas outras nasceram, cresceram e ganharam estabilidade. Poucos membros daquelas novas igrejas sabiam a respeito das perseguições do passado. O número de pastores também cresceu a ponto de se tornar possível a organização de um Conselho de Pastores.
O Conselho nasceu cheio de boas intenções. Era necessário criar meios para que os pastores se conhecessem melhor, orassem juntos respeitando as diferenças teológicas e as possíveis divergências ideológicas, filosóficas e práticas. A ética deveria ser a tônica dos relacionamentos.
Passaram os anos e devido à mudança de rumos, boa parte dos pastores foi se afastando, restando apenas uns poucos interessados nas reuniões que passaram a ter caráter mais político do que religioso. O Conselho havia adquirido status, respeito da comunidade local e até de religiosos.
Um dos pastores, percebendo que havia chegado a oportunidade do Conselho ganhar mais força política teve uma grande idéia: Chegara o momento dos pastores juntarem forças a fim de eleger um representante dos “evangélicos” para a Câmara Municipal. O idealizador do projeto já havia se candidatado anteriormente e como fazia parte do Conselho poderia vir a ser o candidato oficial ungido pelos seus pares.
Tudo parecia perfeito, pois os colegas que continuavam assíduos não teriam dificuldade para indicá-lo. Acontece, porém, que naquela cidade havia outro candidato que também já participara de outras disputas eleitorais até com melhores resultados. Não era membro do Conselho por ser leigo, mas seria, sem dúvida, um bom candidato.
Percebendo que chegara a sua hora, aquele leigo conversou com diversos pastores que já não eram tão assíduos nas reuniões e conseguiu mostrar a viabilidade de sua candidatura. Agiu rapidamente, revelando sua habilidade política e acabou sendo ungido candidato oficial do Conselho!
Não satisfeito com a derrota, o pastor candidato ao invés de seguir a decisão do Conselho optou por lançar sua candidatura e não apoiar o colega que o derrotara. O resultado foi que, mesmo com um candidato oficial do Conselho, muitos outros se lançaram candidatos, como nas eleições anteriores. A ética foi derrotada pela sede de poder.
Como se não bastasse tal atitude, alguns pastores transformaram os seus púlpitos em palanques e seus rebanhos em currais eleitorais exigindo que o povo votasse no candidato ungido. Escandalizados, alguns crentes fiéis a Deus decidiram não seguir a orientação política dos seus pastores, pois conheciam muitos outros candidatos, tanto evangélicos quanto não evangélicos que mereciam o seu voto. Entenderam que não se deve unir política partidária com igreja e que se um pastor quer usar de sua autoridade espiritual para direcionar o voto de um cristão ele já perdeu sua autoridade tornado-se um mau pastor.
Afinal, qualquer um percebia que para que a orientação do Conselho tivesse força seria necessário que o candidato pastor, derrotado na escolha do próprio Conselho, fosse o primeiro a dar apoio ao vencedor. Maior pecado está com os maus pastores que, abusando de sua autoridade procuravam dirigir as decisões pessoais e de consciência dos seus liderados como faziam algumas empresas que ameaçavam seus funcionários se não votassem nos seus candidatos.
Qualquer semelhança com a vida real, não é mera coincidência.
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